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07/03/2005 20:52
Existe uma grande curiosidade em relação de como deve ser a vida dos que saem da organização. Digo isso não apenas pelos e-mails que recebo, mas por que antes, quando eu também era uma TJ eu tentava imaginar como deve ser a vida fora da organização.
Hoje, fora da organização , embora tenha decorrido pouco tempo, uma coisa posso afirmar, como muitos afirmam, a sensação é de que tirei mil quilos das costas. Fazer parte de uma organização como a das TJ representa um sentimento contraditório pois ao mesmo tempo que se tem a sensação de proteção e segurança, temos sempre a terrível sensação de que estamos fazendo pouco, de que somos inferiores ou menos zelosos que outros, de que perderemos nossos parentes e amigos que não querem aceitar a Jeová, sim pois para as TJ, organização e Jeová são as mesmas coisas. Um exercício interessante que se recomenda é fazer a leitura de uma artigo da Sentinela e onde estiver a palavra organização, troque por Jeová e você perceberá que eles usam estas palavras como se fossem sinônimos. Tanto é que afirmam que a organização é perfeita e os membros imperfeitos, como se um pudesse existir sem o outro, ou como se um não influenciasse no outro. De que adianta um carro perfeito e zero KM, com freios ABS, computador de bordo e de última geração, se o motorista, ou o grupo de motoristas, bem como os passageiros são imperfeitos e dirigem mal? Impedirá a perfeição do carro que ele atropele alguém ou que ocorra acidentes? O que é mais importante a organização perfeita ou os membros dela? Embora seja óbvio que não haverá membros perfeitos, também é evidente que não haverá organização humana perfeita, e afirmar que a organização terrestre das testemunhas de Jeová é perfeita tal como se fosse Deus chega a ser uma heresia e total prova de fanatismo.
Mas enfim, a questão é , como me sinto fora da organização que um dia chamei de perfeita e arca de Noé? Continuo a orar como antes? A ler a Bíblia como antes? A falar para as pessoas das promessas da Bíblia de um novo mundo de justiça? Continuo achando imoral e pecado as mesmas atitudes que condenava quando era TJ? Vejo a figura de Cristo e Jeová como antes? Tenho esperança de ser salvo? Como lido com a solidão ao ter sido abandonado por TODOS os amigos TJ? Como é o sentimento de passar na rua por pessoas que você conviveu por anos, alguns desde a adolescência e tais pessoas virarem a cara e me ignorar como a um inseto? Como lidar com esses sentimentos?
Nada mais será como antes. Todos os que saem da Torre descobrindo as doutrinas erradas e desamorosas que por tantos anos acreditou, têm sua fé terrivelmente abalada. Muitos se tornam até mesmo ateus! Fomos mentalmente programados para desprezar e desacreditar toda e qualquer religião que não fosse a das TJ, fomos programados a ver a figura de Cristo como subordinada a Jeová e acabamos por não conseguir ter um relacionamento espiritual mais próximo com Jesus. Ao mesmo tempo a Torre se apropriou do nome de Jeová, e ficamos tão magoados quando descobrimos o quanto fomos enganados que sempre que lembramos do nome JEOVÁ, automaticamente nossa mente associa à religião das testemunhas de Jeová. Isso tem um efeito péssimo pois visto que passamos a ter certa aversão a esta organização, passamos a evitar o nome de Jeová como se de fato Ele tivesse algo a ver com as falcatruas desta organização meramente humana. Daí a dificuldade de restabelecer um relacionamento pessoal com Deus e Jesus.
Passamos a ler a bíblia com um senso crítico mais apurado e começamos a questionar algumas coisas difíceis de engolir pela lógica, atitude esta que antes não nos era permitido. Visto que temos liberdade de pensar, começamos a pesquisar tudo de vários ângulos e uma vez que fomos enganados por uma religião como a das TJ, iremos sempre ver quaisquer explicações ditas como a verdade com restrições e escrutinaremos a fundo. Quase sempre um ex-TJ que saiu por discordar será um estudioso de assuntos bíblicos e religiosos ou então abandonará totalmente os assuntos espirituais. Poucos ingressam em outras religiões, a maioria tenta ter uma vida digna e aplicar os conselhos básicos de amar a Deus e ao próximo sem mais se aprofundar ou defender dogmas e teorias bíblicas. Alguns sentem falta de se reunirem para estudar a Bíblia, mas geralmente isso não acontece, ao menos não na forma tradicional. Podemos dizer que nos reunimos através de bate-papos na internet ou pessoalmente trocando informações e opiniões sobre assuntos bíblicos mas nunca com dogmatismo. A estrutura de apoio que uma organização religiosa oferece como encontros, reuniões, congressos, livros com explicações prontinhas pra assimilar e defender como se fossem nossas próprias explicações, tudo isso não mais existe. Teremos então que pensar por nós mesmos e assumir as responsabilidades pelos nossos pensamentos e ações. Isso é complicado para muitos que jamais tiveram que pensar nada ou decidir o que é certo ou errado livre da influência da opinião de uma organização. O resultado pode ser que alguns caiam no mundo fazendo tudo o que der na teia sem conseguir lidar com sua nova condição de liberdade. Contudo isso não é irreversível. Alguns depois de perceberem que não conseguem viver sem alguém que os controle e lhe estipule limites, voltam pra organização, outros se equilibram e vivem uma vida normal, seguindo os princípios básicos de moral e então passando a ter uma consciência tranqüila. Tudo são fases e nem todos passam pelas mesmas fases e mesmo que passem não existe uma ordem. Cada pessoa é um caso e cada um agirá conforme o motivo que o levou a sair da organização. Se saiu por que alguém o machucou, agirá de uma forma, se saiu por discordar de doutrinas agirá de outra e se foi expulso, agirá ainda de forma diferente.
No que concerne a moral não creio que o indivíduo mude muito. Se para ele ir a uma festa e beber era de fato imoral ele continuará pensando assim, mas se ele se refreava de fazer algo apenas para não dar mau testemunho ou por medo dos anciãos, então ele fará tudo o que não podia fazer quando era uma TJ. Aí reside um grande problema. Visto que a maioria das TJ obedecessem regras da organização pelo fato de que acreditam que obedecer a organização é o mesmo que obedecer a Jeová, quando se vêem livres desta organização, muitos tem dificuldades em distinguir o certo do errado e a liberdade da libertinagem. Como disse certa ex-TJ, é como se fosse uma criança que começa a aprender caminhar sozinha, ela cairá, se machucará, mas terá que aprender a andar sozinha e descobrir onde não pisar.
Ninguém afirma que viver sem o amparo de uma organização religiosa que lhe diga o que fazer seja fácil. Pra alguns é até mesmo impossível. São como crianças que foram disciplinadas com rigor pelos pais, recebiam e obedeciam as ordens sem entender bem o porquê, mas de repente, ao se libertarem do jugo dos pais, se transformam em delinqüentes e fazem absolutamente tudo o que era (e mais o que ainda é) proibido.
A comparação que muitos ex-TJ´s fazem com o filme MATRIX é bem pertinente. Neste filme, quase todos os humanos estão numa espécie de transe ou coma, ligados a um programa de computador que transmite aos seus cérebros imagens, sons, cheiros, tato, enfim... o mundo em que eles vivem não passa de uma ilusão inventada e mantida por um pequeno grupo dominante. No filme existe uma pessoa que foi liberta deste mundo de fantasia, mas após algum tempo no mundo real, ele desejou voltar para o mundo fantasioso de antes, que apesar de irreal, era mais confortável e ele não se sentiria tão só. Isso acontece com pessoas presas na MATRIX da Torre de Vigia. Pessoas que se um dia despertarem não conseguirão viver no mundo real, pensar por si mesmas, ter dúvidas e incertezas. Imagine uma pessoa que viveu sua vida inteira como TJ, no paraíso espiritual, acreditando ter todas as respostas para todas as questões que afligem a humanidade e o privilégio de achar o portão estreito, a única religião verdadeira, de repente desconecta-se essa pessoa da MATRIX, ou seja, ela cai no mundo real e percebe que viveu uma ilusão. Ou ela duvidará da realidade e continuará acreditando no lindo mundo da imaginação ou será uma dor insuportável demais para ela. É por isso, que mesmo quando eu era TJ, que ia de casa em casa e encontrava uma pessoa idosa e católica, jamais eu tinha coragem de falar algo contra os sonhos, ensinamentos e expectativas erradas que esta igreja plantou na mente dela. Além de ser inútil, provavelmente arrasaria alguém que já está no fim da vida. Então se ela me dizia que aguardava em breve ir morar nos céus e ver Jesus, eu concordava. O mesmo acontece hoje em relação a algumas TJ, existem lá dentro pessoas que não podem mais ser desconectadas. Acredito que os mais jovens desta organização podem ser resgatados, ou caso queiram ficar, mudarão os rumos desta organização tirana e medieval, transformando-a numa religião de amor e união entre as pessoas e que ensine a tolerância com os que pensam diferente.
As tais luzes progressivas que podem vir a esta religião estão aí, basta que acendam as lâmpadas. Jeová não vai mandar um raio dos céus e acendê-las. A localização das lâmpadas com as luzes que clareiam mais e mais sempre foram apontadas primeiro pelos apóstatas, mas as pessoas esquecem que os apóstastas são pessoas como você e qualquer outro, a diferença é que tiveram coragem de defender a verdade, a lógica e a liberdade de pensamento. As TJ, precisam entender que sem elas, a grande multidão aqueles 13 senhores de Brooklyn nada podem! Ora se eles se intitulam escravos fiéis e discretos que sirvam e sejam humildes! Jesus disse que quem quisesse ser o maior no reino dos céus, deveria ser o menor entre os discípulos. Reflita: parecem os membros do Corpo Governante humildes escravos a ponto de lavarem nossos pés?
Viver fora da Torre ou da Matrix, ou como diz um amigo ainda TJ, sair da Torretrix, não é fácil! No entanto, apesar de parecer que dentro da Torretrix tudo é maravilhoso, sabemos que não é bem assim. Sair da organização, sem dúvida trará alguns problemas bem espinhosos, continuar lá, sabendo dos erros e calado, trará outros, sendo assim, cabe a cada um decidir e pesar o que vale a pena. Particularmente eu troquei espinhosos problemas os quais eu não tinha esperança de solução por alguns poucos que eu tenho muita fé que se resolverão.
Descobri que os mundanos são pessoas normais como eram nossos irmãos, com a diferença que podemos contar com eles sempre, mesmo que não compartilhemos das mesmas idéias religiosas, coisa que nossos irmãos TJ não aceitam. Todos têm os mesmos medos, incertezas, que nós, não são piores nem melhores. No mundo, como na organização existem amigos que se apegam a nós como irmãos, posso felizmente constatar isso, e também pessoas que não merecem nossa amizade, como acontece também dentro da organização.
Quando saímos e a olhamos de longe, entendemos que ela não passa de mais uma em meio a milhões de religiões. Embora não seja fácil superar os traumas psicológicos causados, não é impossível fazê-lo. Na verdade o que ocorre dentro da organização é uma espécie de programação mental que a depender do tempo e da intensidade em que a pessoa permaneceu mergulhada neste movimento pode demorar cinco anos ou mais até que a organização saia da pessoa embora a pessoa tenha saído da organização.
Para encerrar gostaria de reproduzir um trecho do livro do Raymond Franz, que foi testemunha de Jeová por 60 anos e destes 9 anos serviu como membro do Corpo Governante, renunciando o cargo em 1980, que descreve o que muitos dos que saíram sentem :
Somente a crescente percepção da amizade de Deus e a de seu Filho pode compensar, pode pôr todos os outros relacionamentos na devida perspectiva quanto a seu valor relativo. Embora leve tempo, há bom motivo para confiar que outras amizades se tomarão disponíveis, caso se esteja disposto a fazer o esforço necessário. E há a possibilidade de que estas se provem mais duradouras, baseando-se em afeição, não na relação como membro de uma organização, numa espécie de espírito de clube, mas naquilo que alguém realmente é como pessoa, nas qualidades cristãs demonstradas, nas realidades do coração de alguém. Pessoalmente, não perdi de forma alguma todos os meus amigos. Mas, para cada um que realmente perdi, encontrei outro. Estes são pessoas que têm deixado claro que estão determinadas a não permitir que diferenças de opinião ou ponto de vista tenha um efeito destrutivo sobre essa amizade. Isto segue o conselho dado:
Com toda humildade, doçura e paciência, suportai-vos uns aos outros no amor, solícitos em conservar a unidade do espírito pelo laço da paz. Efesios 4:2,3
Adotar uma perspectiva mais humilde, mais modesta, e ajustar o ponto de vista da pessoa em tais áreas a uma proporção menor, pode ser difícil quando se está acostumado, por tanto tempo, com a extrema ênfase dada a números e à pretensão de que o crescimento numérico é evidência da direção e bênção divinas. Pela primeira vez, a pessoa pode vir a apreciar e valorizar a promessa de Jesus de que onde estão ajuntados dois ou três em seu nome, ele estará presente com eles. Pela minha própria experiência, posso dizer que participar da leitura e discussão das Escrituras com apenas um ou dois tem se mostrado plenamente satisfatório e recompensador. É verdade que, às vezes, quando um número maior de pessoas participa conosco nestas discus-sões bíblicas, ocorre um maior grau de interesse e de variedade de comentários. Todavia, a força fundamental e fortalecedora e a riqueza da Palavra de Deus não ficam reduzidas nessas ocasiões em que somos apenas dois ou três. Posso dizer honestamente que, em cada caso, isso tem feito com que eu me entusiasme com coisas que merecem ser lembradas num grau maior do que em tantas ocasiões no passado...
CRISE DE CONSCIÊNCIA p. 426
enviada por Kaíque
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